terça-feira, 29 de julho de 2014

A trágica História do Homem atômico

Pela primeira vez desde o acidente em 1976, os trabalhadores da Reserva Nuclear de Hanford em Washington estão planejando limpar a sala onde produtos químicos explodiram no rosto de Harold McCluskey, cobrindo-o de radiação 500 vezes acima do limite e incorporando amerício radioativo em seu crânio, transformando-o no homem Atômico.

McCluskey, improvavelmente, sobreviveu ao incidente. (Ele disse mais tarde : "Dos nove médicos, quatro pensaram que eu tinha uma chance de 50% de sobreviver e o resto apenas balançou a cabeça." A dose maciça de radiação deixou-o com problemas de saúde e décadas mais tarde, seu corpo ainda disparava contadores Geiger.

Porém, o legado mais doloroso da explosão foi provavelmente o isolamento, tanto físico como social, com as pessoas se esquivado de seu corpo radioativo.

Quando o acidente aconteceu em 30 de agosto de 1976, McCluskey havia acabado de voltar ao seu trabalho como técnico depois de uma greve de cinco meses que havia fechado a planta de acabamento de plutônio de Hanford. O material que ele estava trabalhando havia se tornado instável após a longa pausa e assim, logo depois que ele acrescentou ácido nítrico como lhe haviam instruído, aquilo explodiu, pulverizando a caixa de contenção que deveria contê-lo. Ele foi exposto ao mais alto nível de amerício radioativo já registrado.

Esquerda: McCluskey após o incidente em 1980.

Seu corpo, agora coberto de sangue e pedaços de metal e vidro, foi levado para o centro de descontaminação onde permaneceu em uma sala de isolamento de concreto e aço. Ninguém se aproximava dele por causa do medo da radiação que ele ainda emitia. "Cego, sua audição danificada pela explosão, McCluskey passou as três semanas seguintes na unidade apartado de contato pessoal", descreveu um perfil mais tarde, na revista People. "Monitorado, como um alienígena, por enfermeiras com respiradores e roupas de proteção, ele não podia ver nem compreender claramente as atendentes que se aproximavam."

As enfermeiras limpavam e barbeavam ele todos os dias - as toalhas de banho e a água se tornavam parte dos resíduos radioativos de Hanford. Ele suportou 600 doses de zinco DTPA, uma droga que se liga a metais radioativos.

No primeiro mês, a família só foi permitida se aproximar a 30 metros dele. Ele continuava a exalar amerício radioativo com cada respiração. Quando a radioatividade no seu corpo havia finalmente caído a 80 %, depois de cinco meses na instalação de isolamento, McCluskey foi autorizado a ir para casa.

Vista aérea de Hanford. 
Mas a volta para casa veio com problemas. Ele se lembra de amigos chamando-o e dizendo: "Harold, eu gosto de você, mas eu nunca poderia chegar na sua casa." As pessoas também contavam como ele alterou o lugar onde ele cortava o cabelo. "Eu não queria que ninguém se machucasse em seu negócio", ele explicou.
Ser o Homem Atômico significava ser um pária, como um paciente com uma doença mortal e contagiosa.

McCluskey teve sua cota de problemas de saúde - uma infecção renal, quatro ataques cardíacos, um transplante de córnea - mas ele não parecia notadamente amargo. Ele finalmente morreu mais de uma década depois de causas aparentemente não relacionados à radiação, o que na verdade, deixou os médicos perplexos .

Trabalhadores de Hanford alimentando ovelhas com comida radioativa.
Mas o legado de radiação não vai embora tão de mansinho...Por todos estes anos, a Sala McCluskey, como agora é conhecida, foi deixada em sua maior parte sem alterações com exceção de limpezas ocasionais.
Só que agora é pra valer. Toda a planta de acabamento de plutônio que uma vez produziu plutônio para armas nucleares, deve ser limpa e demolida. Se tudo correr conforme o planejado, a planta e a sala McCluskey terão desaparecido até 2016.

Hoje, Hanford é o local de maior contaminação nuclear nos EUA e o foco de maior esforço de limpeza do país. Perguntas sobre segurança têm atormentado a instalação, especialmente depois de um vazamento de resíduos radioativos em 2013. Mesmo que a sala McCluskey se vá, o legado da radioatividade em Hanford permanecerá por um longo, longo tempo. Assim como a sombra de Harold McCluskey, o involuntário homem atômico.

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