sexta-feira, 18 de julho de 2014

O significado das linhas da sua mão


O maior delator do nosso corpo se encontra gravado em nossas mãos. Precisamente, as melhores ferramentas que temos para explorar o mundo estão configuradas como um selo característico e único para cada pessoa com um simples recurso anatômico: Linhas.

Os filmes policiais de Hollywood nos mostram sobre as impressões digitais, enquanto a quiromancia, explorou durante séculos a exclusividade das linhas das palmas das mãos. "Na verdade são um conjunto e deveríamos falar de impressão palmar", Afirma Antonio Martorell, dermatólogo adjunto do Hospital de Manises (Espanha).

Nem mesmo os gêmeos univitelinos possuem as mesmas linhas quando abrem as mãos, apesar de terem a mesma cadeia de DNA. Todas as linhas já estão definidas quando chegamos ao mundo e se sabe que partem de uma base genética, mas ainda não estão claros os fatores ambientais que esculpem as linhas enquanto se formam no útero, entre o terceiro e quarto mês de gestação.

A evolução nos converteu nos únicos primatas que batem com o punho fechado

Mas sabemos que "quando esses dermatóglifos (do grego derma, pele, e glifo, desenho) estão se formando, é quando são produzidas as alterações genéticas importantes", acrescenta Martorell.

Essa coincidência explicaria a relação entre certas doenças e os padrões nas linhas das mãos.
Aqueles que adoecem, apresentam desenhos similares (ainda mais que muitos familiares), e por isso são levados em conta em explorações médicas.
Um desenho imbatível para triunfar pela força
Tradicionalmente, a exclusiva forma de nossas mãos na família de primatas (palma pequena e larga, e polegar longo) eram atribuídas à vantagem evolutiva obtida ao nos permitir segurar objetos com precisão. 
No entanto, David Carrier, biólogo evolutivo da Universidade de Utah, propôs uma explicação mais contundente. A verdadeira utilidade de nossas mãos, é poder formar punhos que se dobram sobre as linhas da mão.  
O polegar cobre o resto dos dedos e estes se apoiam na palma para transmitir a força do golpe, de forma que ossos, músculos e ligamentos, fiquem protegidos no impacto.  
Segundo Carrier, a evolução desta arma nos converteu nos únicos primatas que batem com o punho fechado. E diz muito a respeito do caráter agressivo de nossos primeiros ancestrais.

Martorell sublinha que "a pele se desenvolve, a partir da camada que chamamos ectoderme, junto ao sistema nervoso; e quando este tem uma falha durante o desenvolvimento genético, essa falha se expressa nas camadas dérmicas".

Nem sinal delas

No entanto, a função primordial das linhas de nossa palma não é contribuir para diagnósticos, mas sim, servir de fixação à pele e nos permitir flexionar as mãos garantindo um equilíbrio de tensões. Esse papel á evidenciado quando olhamos a quem não as tem. Nas pessoas afetadas por Epidermólise bolhosa, um transtorno genético, onde uma proteína que dá flexibilidade à pele é alterada, no qual, as mãos perdem tensão, as linhas quase desaparecem e a capacidade de fechar os punhos é reduzida.
Lisa e plana 
Quem padece de adermatoglifia não têm impressões digitais nas mãos nem nos pés e apresentam menos transpiração nessas áreas.








Uma mutação genética é também a culpada de uma das afecções mais raras de nossas mãos (e pés): uma mínima presença de linhas nas palmas e ausência total de impressões digitais. Só foram detectadas em quatro famílias em todo o mundo. O estudo de uma delas, na Suíça, publicado em 2011 por Janna Nousbeck, identificou uma versão mais curta do que o habitual, do gene SMARCAD1 como causador do que vieram a chamar de síndrome do atraso na imigração, em alusão aos problemas burocráticos que causa aos afetados que não poder ser identificado pelos dedos.

Uma de suas caraterísticas é que suam menos nessas zonas, já que as chamadas cristas papilares (as linhas elevadas das impressões digitais) têm os poros que também seguem um padrão característico para a cada indivíduo. Oscar Díaz Santana, responsável pelo Instituto Canário de Análise Criminológica, fala de iniciativas para incluir nos sistemas de identificação, "ainda que, se os registros digitais não forem tomados diretamente da pessoa, é difícil que apareçam na revelação".
Levando a sério
Se as raízes da quiromancia se perdem na aurora das civilizações asiáticas, a primeira tentativa por incluir a ciência no estudo das mãos é atribuída à Sociedade Quirológica, fundada em Londres no final do séc. 19. Desde então, já temos um punhado de certezas: 
- As impressões estão cheias de poros que facilitam a transpiração e contribuem para um padrão único em cada pessoa. 
- As impressões e linhas são formadas entre as semanas 8 e 16 do desenvolvimento embrionário. 
- O número de linhas é igual em ambas mãos e não costumam atravessar toda a palma. 
- Podemos detectar relevos da espessura de um fio de cabelo humano, nas impressões digitais.

No entanto, as linhas das mãos só costumam ser levadas em conta de forma secundária nas pesquisas policiais, para apoiar os resultados das impressões. "Até agora não existe nenhuma classificação aceita de maneira uniforme na comunidade científica", afirma Díaz Santana. O mesmo ocorre com relação a intensidade da força da mão, apesar de haver algumas investigações neste sentido.

Do mesmo modo, são observadas diferenças na abundância de sulcos de diferentes grupos étnicos, que atribuem uma maior profusão de linhas nas mãos asiáticas, "que nas europeias e centro africanas, embora não seja algo realmente chamativo", segundo Martorell.
O certo é que todo o traçado das palmas permanecem inalteráveis ao longo da vida, desde o nascimento. Unicamente alguns fatores externos, como profissões com o uso repetido de produtos abrasivos, podem mitigar sua intensidade, devido à inflamação da palma ao longo de muitos anos.
Sinais de alarme ao nascer
Os médicos olham as palmas de mãos e pés dos recém nascidos em busca desse tipo de indícios. "Se encontramos, buscamos outros sintomas, e sempre precisamos de uma confirmação genética", afirma o dermatólogo Antonio Martorell. 
A maioria das pessoas com síndrome de Down apresentam padrões característicos nas linhas das mãos e dos pés. As palmas são atravessadas por uma dobra dupla, transversal com relação aos dedos, com uma profundidade muito maior do que o habitual, como se duas linhas tivessem se fundido em uma só.  
No entanto, as linhas de expressão (as mais fracas) são muito menos abundantes que em outras pessoas. Essa relação com os dermatoglifos (impressões e linhas de mãos e pés) foi detectada também em outras doenças ocasionadas por alterações cromossômicas, como a síndrome de Netherton, um tipo grave de dermatitis crônica, ou de Turner (crianças com um só cromossomo X) e o de Noonan, com sintomas similares.  
Alguns estudos foram incluídos no diagnóstico do Alzheimer, na esquizofrenia e na acondroplasia, mas não de forma generalizada.
Mas a natureza tem um interesse especial em conservar as linhas e impressões tal e como eram desenhadas no início, como aponta Antonio Martorell: "Se uma lesão é produzida, sempre que não afete a camadas profundas, a pele se regenera completamente com o tempo". Esse esforço frustrou os planos de criminosos que tentaram apagá-las fazendo uso de cirurgia ou abrasão, para se livrarem de seu estigma identificatório.

No qual, demonstra que apesar de séculos de quiromancia, nosso particular mostruário de linhas tem uma missão bem mais importante que mostrar o futuro.

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