sábado, 19 de julho de 2014

Um Bloco de Gelo para a África


Em 27 de Fevereiro de 1959 os 3000 habitantes de Mo i rana, uma cidade do Círculo Polar Ártico ao norte da Noruega, se converteram no centro de atenção de meio mundo.

Depois do desafio de uma emissora de rádio, a empresa norueguesa de materiais de isolamento Glassvatt, decidiu equipar um caminhão para transportar um bloco de três toneladas de gelo, desde Mo i rana pelo Círculo Polar Ártico até Libreville, capital do Gabão.

Sem a aplicação de nenhum meio de refrigeração e com a intenção única de mostrar a eficiência dos materiais isolantes de lã de vidro utilizados pela empresa. Uma expedição que gerou a atenção da imprensa de todo o mundo, seguida por grande multidão de espectadores, chegando a se converter na "maior montagem publicitária do planeta".



No outono de 1958, a Rádio Luxemburgo lançou o desafio de transportar três toneladas de gelo do Círculo Polar Ártico até a linha do Equador, uma viagem de 12.000 quilômetros, oferecendo um vultoso prêmio de 100.000 francos para cada quilo que sobrevivesse sem derreter no difícil caminho da Noruega até próximo do Golfo da Guiné.


Entre os patrocinadores, a Shell que proporcionou o combustível necessário e a Scania concedeu um de seus caminhões. O responsável pela expedição foi Sivert Klevan um engenheiro com um grande instinto para as relações públicas. Os blocos de gelo foram cortados com uma moto-serra em pedaços de 200 kg da geleira de Svartisen, para serem transportados em um trenó até um helicóptero e depositados no centro da cidade de Mo i rana.

Ali foram fundidos em um só bloco de 3050 Kg. O imenso cubo de gelo foi colocado em um grande contentor de ferro, isolado com lã de vidro e madeira. Em 22 de fevereiro de 1959, às 9:15 horas da manhã, a expedição partiu de Mo i rana.

A primeira parada do grande tour publicitário foi em Oslo, uma grande cerimônia de boas-vindas foi feita na cidade de Studenterlunden. Uma carga de 300 kg de medicamentos foi carregado no caminhão, com destino ao hospital humanitário Albert Schweitzer em Lambaréné, bem perto de seu destino final. Para Sivert Klevan isso foi um incentivo a mais para aumentar o interesse pelo projeto e ao mesmo tempo, dos magníficos materiais de isolamento da empresa norueguesa Glassvatt, hoje chamada de Glava.

Para obter ainda mais publicidade, a expedição realizou o trajeto por várias cidades europeias: Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Suécia e claro, da eterna Paris, onde o caminhão de gelo foi escoltado pela polícia pelas ruas. Depois de passar por toda a Europa o contentor foi drenado para comprovar a parte de gelo que havia derretido. Apesar das incomuns altas temperaturas que foram registradas naquele mesmo ano na Europa, apenas 4 litros d'água foram drenados.

A viagem continuou pela região do Saara, um lugar especialmente perigoso não só pelas temperaturas próximas aos 50ºgraus centígrados, mas também pelo belicoso momento devido à guerra e das forças clandestinas nas montanhas. Os medicamentos seriam um valioso botim para esses grupos. Como medida de segurança, a expedição foi acompanhada pela Legião Estrangeira Francesa.

Várias vezes o caminhão ficou atolado na areia do deserto. Não haviam estradas, o veículo estava muito carregado e não especialmente preparado para aqueles trajetos pelas dunas. A tripulação passou a maioria das noites nos oásis, mas em algumas ocasiões, dormiam em sacos de dormir na areia.

Em um momento da expedição, a tripulação se reuniu com os Tuaregues e lhes ofereceram como saudação, água do recipiente para os seus camelos, uma deliciosa e fresca água da geleira norueguesa. Uma vez atravessado o Saara, após 7500 quilômetros, 177 litros haviam evaporado, uma média de 15 litros por dia no maior e mais quente deserto do mundo.

Após três semanas, a expedição chegou a Lambaréné, o hospital recebeu os medicamentos juntos com 500 Kg de bacalhau norueguês, uma dádiva para os pacientes do hospital.

Em 21 de março, após 27 dias, chegaram ao destino final em Libreville. Com grande emoção do público e dos meios de comunicação, o contentor foi aberto para mostrar um bloco quase intato de 2714 kg que havia perdido apenas 336 kg em seu difícil caminho. Ainda que não estava claro no início quanto tempo demoraria a expedição, Klevan havia previsto uma perda de 10% e o resultado final foi de aproximadamente 11%. Um imenso sucesso que foi legitimado por todos os jornais do mundo. Os produtos isolantes Glassvatt ficaram mundialmente conhecidos em uma grande montagem publicitária.

A repercussão foi tanta, que um amigo pessoal do presidente Charles de Gaulle, apresentou uma oferta para conduzir de volta o bloco de gelo a Paris. Se a tripulação aceitasse, o próprio presidente receberia à tripulação sob o Arco do Triunfo. No entanto os homens estavam muito esgotados e declinaram a oferta.

A expedição foi um enorme sucesso tanto no objetivo alcançado, como no vultoso prêmio de 100.000 francos por quilo, um prêmio muito bem pago pela Rádio Luxemburgo e pelo resto dos patrocinadores.
Um desafio que passou a ser considerado como a maior montagem publicitária do planeta.