terça-feira, 5 de agosto de 2014

O Cientista que Comeu o Coração de um Rei


Sacerdote anglicano, naturalista e geólogo inglês reputadíssimo do século 19, William Buckland chegou a ser presidente da Royal Geological Society e foi o primeiro a fazer um estudo científico de um esqueleto fóssil de um dinossauro. Como nunca havia visto algo semelhante, concluiu que os restos pertenciam a uma espécie nunca antes imaginada e extinta, um lagarto gigante. Não acertou, mas quase.

Era conhecido por suas brilhantes e estimulantes conferências. Levava dezenas de ossos, fósseis e minerais, subia e baixava do estrado com impulso, se aproximava da audiência e forçava a que se envolvessem.
Houve um episódio em que ele colocou um crânio de hiena na mão de um aluno e gritou: "Oque move o mundo?!". O menino se assustou e retraído, mudou de lugar. Não satisfeito buscou uma nova "vítima" e repetiu a pergunta. Ninguém sabia responder de modo que revelou a resposta: "O estômago move o mundo!". E acrescentou: "Os grandes comem os pequenos".


Tanto o mundo era movido pelo estômago, que ele provava todas as carnes possíveis. Estava convencido de que o sabor é uma das caraterísticas que precisava incluir nas fichas descritivas dos animais. Tinha permissão da Sociedade Vitoriana para a Aclimatação de Animais e importar todos aqueles que quisesse, recebendo em casa na Tom Quad, Igreja de Cristo na Universidade de Oxford.

William Buckland
Graças ao fácil acesso a espécimes, Buckland provou a carne de animais exóticos, como o crocodilo, avestruz, canguru, pantera e inclusive um marsuíno. Como era de esperar, também não tinha asco de animais locais e provou o ouriçotoupeirarato cachorro.

As cobaias corriam pela casa e havia um pônei que tinha permissão para entrar no refeitório. Os animais pequenos eram cozidos e ele comia em seguida; os grandes eram macerados. Segundo dizia, os sabores mais asquerosos que detectou, corresponderam às moscas varejeiras azuis e a toupeira.

O escritor inglês Augustus Hare explicava em suas memórias, que em uma visita a Lord Harcourt, o arcebispo de York, em Nuneham, mostrou a Buckland o coração do rei francês Luis XVI conservado, seco e encolhido, em um cofre de prata. Buckland, enquanto olhava disse: "comi muitas coisas estranhas mas nunca o coração de um rei". Antes de que alguém pudesse esconder o órgão, ele já o havia devorado.

Já o coração de Luis XVII não caiu nas mãos de Buckland e está conservado hoje em uma pequena urna na basílica de Saint Dennis de Paris


As histórias que rodeiam este geólogo sobre sua excêntrica fixação, são muitas e variadas. Contam que durante uma visita a uma Catedral de São Paulo em Londres, lhe explicaram a lenda sobre uma mancha de um líquido escuro que nunca secava no chão. Seria o suposto sangue fresco do santo que brotava da rocha. Buckland não perdeu a oportunidade de provar aquilo. Se agachou, lambeu o chão e rapidamente identificou o sabor: era urina de morcego. O mito caiu por terra.

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