quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Venenos que Curam

As pessoas da Guiana Francesa estão habituadas ao trânsito de viajantes que seguem a rota que descreveu Henri Charrière em sua novela Papillon ao falar da atrocidade dos campos de trabalho da colônia durante mais de um século. Mas nessa ocasião, assistem perplexas ao desfile de cientistas que formam a expedição de "Venomics", um inovador projeto que pretende identificar e desenvolver remédios a partir de substâncias peçonhentas de animais.

Eles deixam para trás as casas típicas antilhanas e qualquer outra via turística para se embrenharem na densa floresta, sem se importar que ao seu passo, o ar açoite a sua pele. Pareceriam buscadores de ouro transtornados se não fosse porque se detém em uma das maiores ameaças para esta população: o veneno de animais como a víbora do Gabão, que assim que ataca, inocula seu veneno na vítima graças a ganchos de cinco ou mais centímetros. Considera-se um dos venenos de serpente mais danosos. É hemorrágico e produz uma necrose que pode ter um desfecho fatal nos dias seguintes.

Tempo de semeia

Os cientistas tomam amostras das glândulas de animais de diferentes tamanhos 
Que interesse pode despertar então, se não é a possibilidade de obter um antídoto? "Procuramos vínculos entre esse veneno e a saúde humana, transformar toxinas letais em fármacos que possam salvar vidas", responde Rebeca Miñambres, de Sistemas Genómicos, a empresa espanhola que participa nesta iniciativa e responsável pela Área de Transcriptômica do Projeto Venomics.

Já recolheram 120 amostras das glândulas de aranhas, escorpiões, serpentes e insetos. E identificaram 200 moléculas. Segundo o ponto de vista, são um autêntico paiol ou um valioso armazém de medicamentos que em um futuro, poderão aliviar a dor e tratar doenças cardiovasculares e neurodegenerativas, inclusive o câncer. Este é o desafio do Projeto Venomics, um consórcio de oito universidades e empresas de cinco países europeus (Bélgica, Dinamarca, França, Portugal e Espanha).

A colheita

A tecnologia proteômica permite determinar mais de 150 sequências diferentes para cada veneno.


Depositar a saúde em um banco mortal

A razão de vir à Guiana Francesa a tomar amostras é sua imponente diversidade (400.000 espécies de flora e fauna), e porque sua condição de antiga colônia da França, faz com que esteja sujeita à legislação francesa e europeia, o que favorece a investigação. Aqui é fácil encontrar jiboias, anacondas, gafanhotos, moscas e mosquitos de todo tipo, térmitas e as temíveis formigas vermelhas. Estas últimas contêm um produto químico letal, piperidina, presente também na cicuta, o veneno usado por Sócrates. Embora provoque prurito e irritação intensos, seus compostos são úteis como estimulantes da função cognitiva no tratamento da doença de Alzheimer.

Em vista da obstinação dos pesquisadores, algum habitante local adverte da rã azul, que apesar de sua cor viva tão atraente, desprende sucos mortais se inalados. Onde os demais vêem um tóxico, os cientistas contemplam mais um recurso natural, composto por peptídeos que podem ter atividades farmacológicas inovadoras. "Se os venenos foram um achado prodigioso para a medicina, os avanços tecnológicos são ainda mais", indica Miñambres. "A tecnologia genômica está nos permitindo conhecer melhor a diversidade do veneno, e gerar sequências de peptídeos como estágio prévio a sua produção industrial in vitro por meio de sequenciação em massa". 

O fruto

A empresa espanhola Sistemas Genómicos conseguiu identificar moléculas desconhecidas que serviriam para tratar numerosas doenças.
A farmácia em um ferrão

A empresa espanhola Sistemas Genómicos criou uma metodologia que permite a análise de moléculas de ARN de um organismo em tempo recorde. Os pesquisadores usam também novas tecnologias que possibilitam obter milhões de sequências. Graças a estes avanços, a cada dia sabemos mais sobre seres vivos com capacidades curativas e sendo capazes de reproduzir em menos tempo, as moléculas que fazem de seus venenos algo único. Das espécies obtidas, 90 foram analisadas por meio de transcriptômica e 30 por proteômica. Espera-se obter mais de 20.000 sequências ao final do projeto, que representarão o maior banco de dados de toxinas existente até o momento.

A cena se repete no Instituto de Biomedicina de Valencia. Ali, Juan José Calvete, pesquisador do CSIC, conseguiu sequenciar o primeiro genoma de uma serpente venenosa, a cobra real, e esmiuçar algumas das chaves moleculares sobre a origem evolutiva da produção de veneno neste animal. As toxinas deste ofídio, a maior serpente venenosa do mundo, são neurotóxicas; isto é, afetam ao sistema nervoso e central. Seu veneno não é o mais potente do reino animal, mas sua mordida pode injetar suficiente veneno (aproximadamente 7 mililitros) capaz de matar um elefante.

Diabetes

O medicamento Byetta é obtido da saliva do monstro de Gila. Seus 39 aminoácidos  funcionam como indutores naturais da insulina.

"Durante sua evolução", diz Juan José Calvete, "as serpentes venenosas desenvolveram glândulas em que determinados genes se foram transformando para produzir toxinas. Agora, o desafio mais fascinante é reproduzir em laboratório esse mecanismo mediante o qual, uma proteína ordinária se transforma em uma toxina e modificá-la para que, em lugar de matar, ajude a curar".

Como é possível? "Os venenos", explica Calvete, "são complexos de toxinas que atuam antagonizando receptores cuja atividade está alterada em determinadas doenças. No caso da cobra real, afetam principalmente aos sistemas cardiovascular e nervoso, bloqueando receptores vitais para a transmissão nervosa. A morte vem por parada cardiorrespiratória. Essas neurotoxinas foram isoladas e estão já em fase clínica para o tratamento da dor".

Hipertensão

O Captopril procede de um componente isolado da serpente brasileira Bothrops jararaca. Foi o primeiro fármaco aprovado pela FDA.

Hoje já existem vários fármacos no mercado (por exemplo, para tratar da hipertensão) cujos peptídeos foram baseados no veneno destes répteis. Segundo Juan José Calvete, "as possibilidades terapêuticas são cada vez maiores graças ao barateamento e precisão da tecnologia. O potencial biotecnológico e clínico desta nova geração de moléculas químicas sintetizadas em laboratório para que reproduzam os mecanismos de ação das proteínas encontradas, está ainda por descobrir". 

Na atualidade, há seis toxinas, ou fármacos derivados delas, indicados para fazer frente à dor crônica ou regular a coagulação sanguínea. É o caso do captopril, um inibidor da enzima conversora da angiotensina desenvolvido a partir de um peptídeo hipotensor isolado do veneno da jararaca (Bothrops jararaca) e aprovado em 1979 para o tratamento da hipertensão sanguínea. Ou ziconotide (Prialt), a forma sintética da conotoxina dos caracóis Conus magus, eficaz contra a dor crônica e grave.

Gliomas

Forma modificada de uma clorotoxina do escorpião Leiurus Quinquestriatus. Encontra-se em fase II de ensaio clínico. Seu nome é Tm-601

Quando os venenos curem

Os cientistas tratam de encontrar outras espécies deste caracol que contribuam com toxinas que, isoladas, poderiam ser usadas no tratamento contra o Alzheimer, o mal de Parkinson e a epilepsia. O potencial terapêutico deste animal é intuído no número de componentes que poderiam ser úteis para a saúde humana: 75.000. Outros estudos clínicos estão provando a utilidade do veneno de algumas espécies de centopeias para aliviar a dor e como potente anti-inflamatório. E assim poderiam ser contados até 170.000 animais venenosos e 40 milhões de suas proteínas, que explicam por que esta linha de investigação é tão promissora.

Agora terão que ajustar os alvos terapêuticos e não permitir que o entusiasmo precipite conclusões. Em Cuba, o fármaco Escozul e seu derivado homeopático, Vidatox, irromperam há alguns anos como promessa para fulminar qualquer tipo de câncer e outras doenças, incluindo a AIDS, graças à ação do veneno diluído do escorpião azul.

Analgésico Prialt.

A última toxina aprovada pela FDA. O peptídeo cíclico ziconotide do caracol marinho Conus magus atua sobre o sistema nervoso central com um potencial analgésico superior à morfina. 
É verdade que seu efeito sobre as células está em fase de investigação, mas ainda não existe nem uma só publicação médica referente ao tratamento com Escozul. "Tudo o que pode ser encontrado são depoimentos pessoais e notas de imprensa", adverte Ricardo Cubedo, oncólogo do Hospital Puerta de Hierro de Madri. Para ele, o maior perigo é que, ao se propor tais intervenções em lugar dos tratamentos baseados na experimentação científica, podem evitar que algumas pessoas com tumores tratáveis, recebam tratamento eficaz.

O Projeto Venomics alcançou a metade do caminho, mas, como diz Rebeca Miñambres, bastou para provar que a descoberta de centenas de peptídeos e proteínas no veneno de uma só espécie, abre múltiplas possibilidades. O câncer, os problemas cardíacos e as doenças metabólicas parecem os candidatos mais prováveis para ser o alvo desta grande empreitada.

Sintomas do câncer

O Vidatox 30 CH é um preparado homeopático, elaborado a partir do veneno de escorpião Rhopalurus junceus.
Veneno da centopeia para a dor 

A centopeia modificou seu primeiro par de patas em modo de presas para injetar um veneno que de algumas espécies, pode ser utilizado como calmante para dores e potente anti-inflamatório, segundo estudos clínicos da Universidade Autônoma do México. A investigação se estendeu fora da área da analgesia e estão declarando seus efeitos em patologias relacionadas com o coração, no tratamento de vários tipos de câncer e suas virtudes como bactericida e antibiótica.
A toxina atua diretamente no sistema nervoso e nos músculos.  
Veneno da cubomedusa

No interior dos túbulos que contém seu veneno, foram encontradas moléculas bioativas com capacidade de participar nos mecanismos de diferentes doenças, assim que seu potencial curativo poderia ser incalculável, de acordo com a pesquisadora Angel Anne Yanagihara, da Universidade do Havaí.
Formigas vermelhas para o Alzheimer

Um dos alvos terapêuticos mais esperançosos das toxinas, são as doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer. O veneno das Formigas vermelhas contém piperidina, um químico que, embora provoque irritação muito incômoda no momento da picada, poderia ser a base para a criação e desenvolvimento de novos compostos farmacológicos estimulantes da função cognitiva. A piperidina afeta ao mecanismo sináptico do cérebro: é fundamental na comunicação. 
O vampiro anticoagulante

Está em estudo a toxina da saliva do morcego comum (Desmodus rotundus) como anticoagulante. Chamada de draculina, trata-se de uma glicoproteína composta por 411 aminoácidos. Poderia ser eficaz para pessoas que sofrem um acidente isquêmico, nas nove horas seguintes. Os fármacos atuais funcionam só se administrados em menos de três horas. Também se estuda seu uso para prevenir ataques cardíacos.
Uma cura que fará ruído 

Em sua evolução, a serpente cascavel (Crotalus lepidus) foi se especializando em danificar certas funções vitais da presa com um complexo de enzimas e peptídeos que desequilibram os níveis fisiológicos dos hormônios e portanto, os sistemas cardiovasculares ou nervosos de suas vítimas. Ao isolar uma de suas toxinas, investigadores brasileiros encontraram sua utilidade para atacar às adesinas em certos tumores cancerígenos.

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Um comentário:

  1. Adoro animais venenosos.
    Tanto que estou me especializando em serpentes venenosas para extração de veneno.
    ^^

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