quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Rukeli - A Trágica História do Boxeador Cigano Que Desafiou o III Reich


A vitória é o principal objetivo de qualquer desportista profissional. Ganhar ou perder, passar à história como vencedor ou desaparecer nela como vencido: esses são os dois caminhos que podem tomar a maior parte dos atletas.

No entanto, alguns deles são capazes de ir além e se converter em heróis através do seu exemplo, independentemente dos resultados que tenham conseguido competindo. Agora que estamos em plenos Jogos Olímpicos, Jesse Owens, o atleta que enfureceu Hitler é sempre lembrado.

Mas três anos antes de que o norte-americano ganhasse quatro medalhas nas Olimpíadas de Berlim, outro desportista exasperou o III Reich. Trata-se do boxeador cigano Johann Trollmann.

Johann "Rukeli" Trollmann.

É possível que nunca tenha ouvido falar de Trollmann, apelidado de "Rukeli". Mas graças a organização Holocaust Memorial Day Trust, através do seu blog e algumas outras páginas como a Wikipédia, sua lembrança é mantida viva.

Nascido próximo de Hannover no final de 1907, Johann foi desde muito jovem um apaixonado pelo boxe. Antes de cumprir 20 anos já havia conquistado vários campeonatos regionais em uma região da Alemanha onde esse esporte contava com grande aceitação.
Johann "Rukeli" Trollmann foi duramente discriminado por ser Cigano.

Mas "Rukeli" não era um boxeador convencional: ele se impunha mais por habilidade do que por força, tirando vantagem de seu jogo de pernas, tão veloz como estranho para a época. Alguns acreditavam que esse estilo era "pouco alemão" e esses, conseguiram excluí-lo dos Jogos Olímpicos de 1928.

Embora Trollmann não tenha jogado a toalha e continuado com sua triunfal carreira em Berlim, as coisas se complicariam para ele com a chegada ao poder de Hitler.

Prova disso foi o acontecido no combate pelo título nacional da categoria peso-meio-pesado, contra Adolf Witt em 9 de junho de 1933. A luta foi suspensa sem motivo aparente quando "Rukeli" estava prestes a alcançar uma merecida vitória, que os juízes se negaram inicialmente a lhe conceder.

O clamor entre o público presente obrigou às autoridades a nomeá-lo campeão, título que lhe foi retirado menos de uma semana depois. Argumentaram que seu estilo não era aceitável, que um boxeador não podia chorar sobre o ringue como ele havia feito, enfurecido. A verdade é que queriam evitar a todo custo, um campeão cigano.

Fotograma do filme "Gipsy - Die Geschichte Des Boxers Johann Rukelie Trollmann".


Assim, foi anunciado que iriam celebrar um novo combate em 21 de julho daquele mesmo ano para determinar o ganhador definitivo. Mas Trollmann recebeu instruções precisas para a luta: ele estava proibido de "dançar como um cigano", ele deveria "lutar como um autêntico alemão".

Em outras palavras, ele foi obrigado a renunciar ao seu próprio estilo e consequentemente, a suas opções de vencer. Foi então quando "Rukeli", lançou a máxima ousadia possível contra aquele que o discriminavam:

Ele se apresentou para a luta completamente coberto com farinha e com o cabelo tingido de loiro. A caricatura de um ariano e ao mesmo tempo, um corajoso ato de protesto. "Rukeli" não enfrentou seu oponente, mas sim, permaneceu quieto no centro do ringue, recebendo os socos e sangrando até cair sobre a lona. Aguentou cinco assaltos antes de perder o fôlego.

"Rukeli" contra Fred Bölck em 26 de fevereiro de 1933.
"Rukeli" venceu.


A carreira de Johann Trollman nunca voltaria a ressurgir. Foi esterilizado como muitos outros ciganos na Alemanha e chegou a se divorciar para proteger a sua família. Por essa mesma razão, para proteger os seus, ele se enganjou nas fileiras da Wehrmacht em 1939.

Em 1942 foi expulso do corpo, preso pela Gestapo, torturado e enviado a um campo de concentração. Ali foi explorado, obrigado a combater para divertimento dos poderosos. Um "kapo" (prisioneiro que gozava de privilégios), chamado Emil Cornelius, não suportou ter sido derrotado e se lançou contra "rukeli" com um pau, assassinando-o brutalmente.

Os méritos de "Rukeli"foram finalmente reconhecidos em 2003, quando sua família recebeu o cinturão de campeão nacional que ele mesmo devia ter recebido sete décadas antes. Sua valentia é elogiada com dois monumentos em sua memória em Hamburgo e Berlim.

Trailer do filme Gipsy - Die Geschichte Des Boxers Johann Rukelie Trollmann:

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Fonte Fonte Fonte

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