segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Marie Marvingt e a Primeira Ambulância Aérea


Certamente, a vida de Marie Marvingt foi excecional em todos os seus aspectos.

No dia 20 de fevereiro de 1955, uma senhorinha idosa caminha com decisão entre aviões, acompanhada de pilotos e curiosos na base aérea francesa de Toul-Rosières. A cena é pouco comum, mas o que acontecerá a seguir será bem mais surpreendente.

A mulher, junto de um piloto da U.S. Air Force, se acomoda a bordo de um interceptor supersônico com capacidade nuclear: o McDonnell F-101 Voodoo. Quem pensou que se tratava de uma simples visita, se enganou.
Ela não foi participar de uma simulação, nem muito menos sentar na cabine posterior "brincando" com os comandos...

O caça fez rugir a plena potência as suas duas turbinas Pratt & Whitney, percorreu a pista e decolou.
Efetivamente, uma octogenária ocupou durante todo o voo, um posto na cabine de um avião de combate da OTAN.

Que grandes façanhas havia conseguido aquela mulher para que lhe fosse concedida tal honra?

McDonnell F-101 Voodoo




Marie Marvingt

Naquele mesmo ano, a idosa aprendeu a voar em helicópteros, conseguindo a correspondente licença de piloto que naturalmente, não ficou esquecida em sua bolsa. Ela tratou de usar o documento ativamente durante anos até que, em 1963 e com 88 anos de idade, abandonou este mundo.

Desde então, na França ela é considerada heroína nacional, onde volta e meia seu nome é usado para batizar ruas e edifícios de todo tipo, entre outras honras.

Marie Marvingt publicou vários livros, muitos e muitos artigos, participou de filmes e conseguiu numerosos prêmios aeronáuticos mas, principalmente, é lembrada por sua obstinação.

Marie Marvingt
Nascida em 1875, Marie se destacou muito cedo por sua habilidade esportiva, sendo capaz de ser notada mundialmente em esportes aquáticos, corridas de cavalos, atletismo, boxe e artes marciais, além de tênis, golfe, futebol, esportes de inverno.

A verdade é que aquela garota era uma atleta incansável e polivalente, com um potencial poucas vezes igualado.

Ainda por cima, pouco antes da virada do século XX, conseguiu uma licença para condução de automóveis e já acumulava tantos troféus e medalhas que mal restava espaço em uma grande prateleira.

Na primeira década do século XX, sentiu o chamado das montanhas e assim, se converteu na primeira mulher em alcançar muitos dos picos dos Alpes suíços e franceses.

Suas façanhas eram publicadas apaixonadamente pelos jornais da época.

Naquele tempo era conhecida como "anfibio vermelho", pela cor da sua roupa de banho. No final daquela década, ela se converteu em uma autêntica rainha dos esportes de inverno e também, em uma condecorada atiradora.

Pouco a pouco as máquinas foram tomando um lugar especial em seu coração.
Em 1910 foi campeã mundial de Bobsleigh*, enquanto também se destacava no ciclismo, ainda que em 1908, sofreu uma grave decepção ao ser proibida de participar no Tour da França, pois unicamente podiam participar homens.

*O bobsleigh é um esporte de inverno no qual, equipes de duas ou quatro pessoas realizam, por meio de um trenó, descidas cronometradas em uma pista de gelo sinuosa e estreita especialmente construída para competição.


Em pouco tempo, em diversas provas, pôde demonstrar que podia competir contra qualquer homem e graças a essa obstinação, conseguiu da Academia dos Desportos da França, em 1910, a medalha de ouro "por todos os esportes", algo completamente excecional.

Apenas com pensar em tudo isto, a gente já fica cansado... Porém Marie, demonstrava ter tanta energia que dezenas de pessoas não poderiam dispersar em toda uma vida e no entanto, era apenas o começo.

Novamente, uma máquina, foi capaz de apaixoná-la. Já não era um automóvel, ou uma bicicleta, nem mesmo um dos seus queridos trenós.

Desde que em 1901 ela ascendeu em balão pela primeira vez, não deixou de pilotar aerostatos, mas desejava ir além. Seus voos em balão, como o que realizou cruzando o Mar do Norte a bordo do balão L'Étoile Filante (Estrela Fugaz), temerários e pioneiros, não podiam ser comparados com seu desejo por pilotar aviões.

Em 1909 provou algo que sempre ficaria em sua memória como o momento em que descobriu sua maior paixão: os aviões.
É considerada a primeira mulher em pilotar em solitário um avião monoplano e no final de 1910, conseguiu que lhe fosse concedida a terceira** licença mundial de piloto de avião concedida a uma mulher.

**(Élise Deroche ou Baronesa Raymonde de Laroche foi a primeira e Marthe Niel a segunda.)

Recorte de revista espanhola de 1913.


Sua perícia a tornou lendária e ao longo de quase mil voos, foi capaz de aterrissar sem nenhum contratempo, e isso que não se limitou a voos de lazer, pois participou em espetáculos perigosos e competições arriscadas, estabelecendo diversas marcas mundiais.

Foi a Primeira Grande Guerra o que a impulsionou a lutar por uma ideia em que vinha pensando desde 1912: a implantação de ambulâncias aéreas.

Ela lutou na guerra, inclusive nas trincheiras e em várias frentes. Em 1915 se converteu na primeira mulher piloto de combate, bombardeando território alemão, sendo condecorada por isso.

Eis o motivo pelo qual, além de ser lembrada como impulsora do uso da aviação em trabalhos sanitários, foi premiada com a honra de voar a bordo de um caça supersônico com a idade de 80 anos.

Marie Marvingt, em um desenho de 1914 de autoria de Émile Friant sobre a ideia da ambulância aérea.


Terminada a Primeira Guerra Mundial, Marie Marvingt trabalhou como jornalista, correspondente de guerra e oficial médica no norte da África, além de inventar enquanto estava no Marrocos, um sistema de trem de aterrissagem semelhante a patins metálicos para facilitar aterrissagens de aviões sobre a areia.

Desde então, nunca se cansou de promover o uso da aviação para fins médicos e sanitários, sendo impulsora de diversas organizações relacionadas com o desenho e uso de ambulâncias aéreas, conseguindo em 1935 a primeira licença mundial como piloto paramédico.

E assim, chegando a ser nomeada membro da Ordem Nacional da Legião de Honra, uma outra guerra recaiu sobre a Europa... E nem por isso, sua energia havia diminuído.
No meio da Segunda Guerra Mundial, trabalhou em um hospital para aviadores feridos e inventou um novo tipo de sutura cirúrgica.

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Sinceramente, mal dá para acreditar que o tempo de uma vida possa ser preenchido com tantas e tão boas experiências e com tanta paixão.

Abrax

Fonte

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