domingo, 14 de janeiro de 2018

A história do dia em que Hungria pressionou seus habitantes a sorrir para acabar com os suicídios

Uma década e meia depois da Primeira Guerra Mundial em Budapeste, Hungria, um grupo de pesquisadores, estudando vários dados estatísticos sobre a população e o desenvolvimento da mesma depois do pós-guerra, detectou algo que preocupou imensamente os governantes: a quantidade de suicídios havia disparado de maneira alarmante. Eram os anos 30 e os suicídios eram inclusive superiores aos registrados durante a própria guerra.

Conquanto hoje sabemos que as ondas de suicídio não são nada raro, e, de fato, por exemplo, em países como o Japão e Coreia ocorrem de maneira periódica, como nos primeiros dias de setembro quando os estudantes voltam das férias com problemas de estresse ou angústia, na década de 30 estes fenômenos sociais eram completamente desconhecidos; motivo pelo qual, em vez de buscar soluções efetivas, como as desenvolvidas no Japão, que buscam atacar as causas e mitigar o estresse; na Hungria criaram uma das soluções mais estranhas já concebidas: forçar à população a sorrir.


Não só a solução foi estranha, as causas teorizadas também foram, já que culparam de maneira unilateral à canção "Gloomy Sunday", altamente melancólica e de tons tristonhos. A música cantada por Billie Holiday, composta pelo pianista húngaro Rezső Seress, versa sobre uma tarde chuvosa e nublada de domingo em Paris, enquanto o músico lamenta o recente suicídio de sua namorada.

A lenda urbana sobre a "canção do suicídio" continua até hoje, cresceu de tal maneira que foi proibida tanto na Hungria como nos Estados Unidos e vários outros países, e inclusive chegaram a multar fortemente as rádios que a tocavam.
Hoje sabemos que a canção não teve nada a ver, e que a onda de suicídios estava relacionada com os efeitos econômicos e o tenso clima vivido na Hungria perto do início da Segunda Guerra Mundial, com fascistas linchando gente pelas ruas e comunistas tentando encurralar o país dentro do regime soviético. O próprio Rezső sofreria um destino trágico, primeiro perseguido pelos nazistas por causa de sua religião e depois pelos comunistas já que suas canções foram consideradas "contra-revolucionárias".

Para solucionar os suicídios criariam as "Escolas de Risadas”, agrupamentos em que ensinavam as pessoas a sorrir, muitas vezes copiando os sorrisos de personagens famosos, como por exemplo Roosevelt, ou de obras de arte famosas, como a Mona Lisa.
Estas "escolas do riso" tinham professores que contavam com todo tipo de material didático, que listava os diferentes tipos e estilos de sorriso e seus efeitos nos demais. Esta última peculiaridade, de que o sorriso é contagiante, por verdade, foi considerado um dos primeiros passos em direção aos neurônios espelhos, que só viriam a ser descobertos em 1996 por um grupo de cientistas italianos. Além do mais, existiam máscaras de treinamento de sorrisos, que as pessoas deviam fixar na boca por horas para treinar uma boa risada.

Além de ditas escolas, exércitos de palhaços saíram às ruas para alegrar os transeuntes. O "remédio" acabou provando ser pior que a doença e os suicídios aumentaram. Prontamente o governo húngaro, açoitado pela crescente e inevitável ameaça no horizonte de uma nova guerra mundial, fechou as escolas do riso e focou seus esforços em "adestrar" a população para uma resistência de combate urbano e sobrevivência. Curiosamente, os suicídios diminuíram.

Fonte: io9

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