domingo, 4 de fevereiro de 2018

Ishikawa Goemon, o Robin Hood japonês que acabou cozido

Os amigos do alheio existiram em todas as épocas e lugares e basta darmos uma olhada nos telejornais para vermos que não estão precisamente em perigo de extinção. Mas sempre existiram classes que vão desde o ladrão de galinha até aqueles que acabaram se transformando em autênticos heróis lendários. O protagonista deste artigo é mais um nessa lista de nomes míticos que vai desde Robin Hood até Bonnie & Clyde e demais foragidos lendários que causaram sérios problemas a ordem social.


Falamos de Ishikawa Goemon, um ladrão que semeou o terror entre os ricaços de Quioto e arredores no final do século XVI. Tão ressoados foram seus crimes que chegou a ser pouco menos que o inimigo público número 1 de sua época. Mas, como diz o refrão, ao final o crime não compensou. Para desgraça de Goemon, acabou literalmente escaldado de tanto roubar.

Goemon teve uma vida (e sobretudo uma morte) digna da melhor novela. Há várias histórias sobre ele: que era um paladino dos desfavorecidos, que roubava os ricos para repartir o produto entre os pobres; outros dizem que era um antigo ninja -criado pelo não menos lendário Momochi Sandayu-, que, devido a recente unificação do país, ficou desempregado e que, sem guerras para lutar, se viu obrigado a roubar para ganhar a vida.

A história mais plausível, no entanto, diz que, como segundo filho de uma família samurai de classe média, caiu em desgraça por um roubo com homicídio no meio (do qual não teve culpa), quando não teve melhor ideia de seguir adiante e se tornar um bandoleiro. Há versões para todos os gostos, e seguramente todas tenham alguma verdade.

O pouco que sabemos dele de verdade foi contado por um missionário jesuíta, o Frei Pedro Morejon, que, junto ao português Antônio Francisco Cardim e Romão Nishi, por aqueles dias, estava pescando almas no Japão para a maior glória do Senhor. Ainda que, em realidade, Frei Pedro só chegou a tempo de relatar seus últimos momentos:

- "O incidente aconteceu em 1594. Um tal Ishikawa Goemon e nove ou dez de seus parentes foram fervidos em óleo."

Não sabemos se o óleo seria de oliva ou de soja mas, em qualquer caso, deve ter sido uma morte bastante desagradável. A execução aconteceu em Quioto, a então capital do país, e ao que parece foi um sucesso de público. Pessoas das mais longínquas províncias foram ver como cozinhavam em fogo lento em um enorme caldeirão aquele bandido indomável.

Como condimento ao macabro cozido, acrescentaram seu próprio filho, a quem, dizem, Goemon tentou manter a salvo do óleo quente, sobre sua cabeça, até sua última respiração. Para acompanhar o guisado, também passaram pelo caldeirão vários familiares e comparsas. Um final tetricamente efervescente para o bando de ladrões mais famoso do momento.

Semelhante calvário pode parecer um pouco excessivo para executar um simples gatuno, mas é que Goemon não era um fora-da-lei qualquer. Ricos comerciantes, grandes senhores feudais, figurões do clero faziam parte de sua freguesia predileta.

Não tinha em todo Japão muro o bastante alto nem porta o suficientemente trancada para detê-lo. Junte-se a isso o povo humilde que via com simpatia como ele e seu bando de amigos do alheio limpavam impunemente as caixas fortes dos ricaços de Quioto. A fama de Goemon cresceu a olhos vistos, mas ao mesmo tempo ganhou inimigos muito poderosos.

Entre eles se encontrava nada menos que Toyotomi Hideyoshi, o amo e senhor do recém unificado Japão. A lenda diz que, indignado pelo forma despótica que tinha se tornado o governo de Hideyoshi, Goemon empregou suas habilidades ninjas para roubar o castelo de Fushimi, a residência oficial em Quioto. Sua intenção era cortar o pescoço de Hideyoshi enquanto dormia. Mas para quem tinha habilidades de um ninja, era um pouco torpe, porque ao se mover em sigilo no meio da escuridão acabou derrubando um incensário e o barulho alertou toda a guarnição.

A lenda diz que Goemon foi subjugado antes que pudesse se aproximar sequer dos aposentos do tirano, mas seguramente tudo isto não passa de uma bonita e florida história, já que nem Goemon nem ninguém em sã consciência teria pensado em atacar o homem mais poderoso do Japão em seu próprio castelo (ou não). Mas o ladrão ninja se transformou em uma figura tão fabulosa que qualquer façanha, por mais disparatada que fosse, parecia crível quando creditada a ele. Seu truculento final, cozido em seu próprio suco, não faria senão aumentar sua lenda.

A imagem que ficou de Goemon para a posteridade é uma mistura entre Robin Hood e Arsene Lupin, um ladrão cavalheiro, um dandy do Japão feudal amante dos luxos caros mas, ao mesmo tempo, com um coração de ouro. Um rebelde que ria do perigo e gostava de desafiar os ricos e poderosos, com um jeito descarado e bravateiro.

O teatro kabuki terminou de consagrá-lo, transformando-o em personagem recorrente e dando-lhe seu característico descaramento, senha de identidade inconfundível daí em adiante. Desde então até nossos dias, Ishikawa Goemon se tornou um dos heróis mais reconhecíveis da cultura popular nipônica. Seu nome soará familiar a alguns leitores, já que ainda hoje é fácil encontrá-lo como protagonista de videogames, filmes e desenhos animados.

400 anos após seu truculento final, Goemon segue muito vivo. Como amostra, hoje em dia os japoneses chamam as banheiras feitas de metal "goemon buro" (foto acima), ou seja, "banhos de Goemon", recordando o caldeirão onde foi cozido em fogo lento. Com o costume estranho que os japoneses têm de tomar banho com água pelando, não seria raro que algum dia alguém acabe se tornando um Goemon em toda regra. Mas, por escaldado que saia, é difícil que chegue a se tornar tão famoso como o último banho deste intrépido Robin Hood japonês.


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