sábado, 20 de outubro de 2018

Repostagem: 犬神 - Inugami - A Magia Negra Japonesa como Você Nunca Viu



Na mitologia japonesa um Inugami ou literalmente "cão-deus", é uma forma de utilizar um Espírito Animal, comumente o de um cão, basicamente para levar a cabo uma vingança ou para que atuem como guardiães a favor de seu Inugami-mochi*. Os Inugami são uma variedade de feitiçaria chamada de Kojutsu**, a qual, foi proibido o seu uso no período Heian (794 - 1185).

Nota do Tradutor: O correspondente japonês deste que vos escreve e estudioso do folclore japonês, Ryouzen Nomyama, compartilhou um pequeno texto em um comentário no Facebook que foi a fagulha inicial que culminou nesta postagem, não sem antes ele dizer que assunto Inugami é praticamente um Tabu e um capítulo negro e vergonhoso na história do Japão, muito pelo fato de consulentes aproveitarem tal "poder xamânico" à custa de muito e perpétuo preconceito que marca os descendentes de "famílias Inugami" até os dias atuais.

Inugami do "Pergaminho Ilustrado dos
100 Contos de fantasmas" 百怪図巻
de Takayuki Sawaki.
*(犬神持ち Inugami-mochi = "detentor de um cão-deus").
**(蠱術 Kojutsu é também chamada de feitiçaria 蠱道 Kodou ou literalmente "Caminho do verme", ou ainda de 蠱毒 Kodoku, literalmente "Verme venenoso". NDT.)

Como na maioria das culturas, o cão é visto no Japão como uma companhia carinhosa, intrépida, ágil e feroz ante os inimigos do seu amo.

Nos contos populares japoneses, os cães são considerados seres mágicos e uma lenda afirma que o cão podia falar como o ser humano, mas perdeu essa habilidade. O grupo autóctone de Hokkaidou, os Ainu, consideram o cão um animal astuto, perigoso e com uma certa humanidade.

Características


Inugami no "Diagrama ilustrado dos 100
demônios noturnos" 画図百鬼夜行 de
Sekien Toriyama.
Em frente à representação do cão-deus,
está um "Shirachigo", uma
criança que pode ser um discípulo
de Inugami ou um Youkai. 
Apesar disso, do cão ser considerado um animal querido, bondoso e leal, a crença geral diz que para que o feiticeiro seja beneficiado pela Magia Negra de Inugami, seria preciso enterrar um cão até o pescoço e lhe deixar sem comida por um longo período. Quando o animal faminto estivesse às portas da morte por inanição, o feiticeiro lhe ofereceria então comida, mas sem que o pobre cão pudesse alcançá-la.

Durante o processo, o feiticeiro desgraçado entoa esconjuros e fala ao cão que o sofrimento do animal não é maior que o seu. Após dizer toda a ladainha, o feiticeiro se posiciona atrás do cão com uma espada e o animal desesperado de fome ante a comida, e concentrado em alcançá-la, tem sua cabeça decepada e esta salta abocanhando-a.

Essa cabeça de cão é incinerada, os ossos são colocados em uma urna e então venerados. A partir desse momento, o feiticeiro começa a ser possuído para o resto de sua miserável vida pelo espírito de Inugami.

Nota do Tradutor: Vale ressaltar que esse método encontra eco em um antigo feitiço negro utilizado no Brasil para ter sorte no jogo, no qual, consistiria de inserir 3 sementes de alfavaca nos olhos deliberadamente vazados de um gato preto e ânus, o animal então seria enterrado vivo e as sementes que a planta posteriormente produzisse, seriam testadas sendo cravadas nos dentes caninos uma a uma pelo maldito mal-nascido ante um espelho. As sementes que não refletissem sua imagem, seriam mágicas e então portadas como amuletos.

Representação de Inugami da obra
塵埃 Jin-ai "poeira" de Oka Kumaomi.
Uma variação do método de criar um Inugami, é o de enterrar a cabeça decepada de um cão, que antes estava prestes a morrer de fome, em uma encruzilhada. Pessoas passariam pisoteando o local acumulando rancor no espírito animal. Esse rancor seria utilizado então pelo feiticeiro contra o alvo de seus desejos mesquinhos.

Ainda, há um outro método que consiste em aprisionar cães ferozes e famintos, fazendo-os brigarem até à morte entre si e ao último restante, lhe dar um peixe para comer. Quando o animal abocanhasse, teria sua cabeça decepada. O peixe é retirado de sua boca e comido pelo feiticeiro negro.

Na localidade de Sankou, município de Hayami, província de Ooita, oficialmente existiu um amuleto com base em Inugami que gerou acusações de charlatanismo no passado.
Dizem que de forma clandestina, ainda hoje tal amuleto ilícito seria comercializado.
Neste caso, as sacerdotisas usariam a cabeça decepada de um cão pelo "método do peixe" descrito acima, e deixada para apodrecer. A cabeça juntaria larvas e estas seriam capturadas, secadas, embaladas e depois vendidas como um tipo de amuleto, no qual, atraía e atrai muitos interessados em adquirir tal patuá maldito, ainda que seja fraudulento e proibido.

A partícula "deus" (神 Kami) em Inugami 犬神

Uma lenda conta que uma idosa que desejava vingança contra um inimigo, enterrou o seu precioso cão na terra apenas com sua cabeça de fora, e disse:

"Se tens alma, faz minha vontade e te adorarei como a um deus (神)".

Ela então serrou a cabeça do cão com um serrote de bambu, libertando o espírito do cão como um Inugami. O espírito realizou a vingança como ela desejava, mas em troca de sua morte dolorosa, este espírito obsessionou a idosa como uma maldição.

Os detentores do cão-deus

Nas Ilhas Oki, o Inugami faz o papel que o espírito de Kitsune (raposa) desempenha em outras regiões do Japão. Acredita-se que um detentor de Inugami é abençoado com boa sorte e sucesso na vida, mas em troca, são repudiados pelas outras pessoas e lhes custa muito encontrar noivas ou noivos.

Também precisam ser cuidadosos para não insultar os seus Inugami e receber a sua Ira, que diferente de um espírito Kitsune, o Inugami não segue simplesmente os desejos do seu detentor, mas também atua sob seus próprios impulsos.

Inugami ao lado do Youkai Rokurokubi
Nota do Tradutor: Vale aqui a menção de que usa-se um espírito de Inugami para esconjurar uma possessão por espírito de Kitsune, pois na natureza, o cão afugenta a raposa.

Existe até os dias de hoje, a crença do Inugami em todo o sudoeste japonês, de Kyushu, Shikoku e chegando até a Okinawa.

Em Shikoku, antes de celebrar um Casamento, as famílias verificam previamente a árvore genealógica do conjugue para ver se algum de seus integrantes é um Inugami-mochi, com o objetivo de não "misturar o sangue" com alguém manchado pela magia negra.

Mesmo para os descendentes distantes da linhagem familiar de Inugami, o preconceito é perpétuo e tangível até os dias de hoje. Tais pessoas, tidas como herdeiras de uma maldição, são odiadas e excluídas da sociedade, mais até do que os próprios feiticeiros que ainda que raros, exercem seus feitiços para consulentes nos dias atuais.

As remotas origens de Inugami

Minamoto no Yorimasa mata o Nuê.
Existem várias hipóteses da proveniência do Inugami, uma é a que diz que provém de uma parte do corpo do Youkai Nuê, que se partiu em 4 partes quando foi exterminado por Minamoto no Yorimasa.

Outra versão diz que, nasceu de um quadro realizado por Kouboutaishi - Kuukai (774- 835) para espantar Javalis.

A última diz que, nasceu quando Gennou Shinshou tratou de minimizar o poder de Sesshou seki ou "pedra da morte" partindo-a, e um pedaço voou ao antigo país de Ueno (atualmente província de Gunnma) convertendo-se em Osaki** e a outra parte voou até Shikoku convertendo-se no famoso Inugami.

**(Osaki é um tipo de espírito de raposa (Kitsune) utilizado para realizar pequenas tarefas através de possessão voluntária por seus detentores.)

Possessão em humanos

O corpo original do Inugami fica para trás, restando seu espírito que aos poucos se gruda nas costas do seu detentor para realizar os seus desejos mundanos. O corpo enterrado do cão sem cabeça, vai lentamente murchando e apodrecendo, e o Inugami após ver que seu corpo não é mais habitável, tomará posse definitiva então do corpo do feiticeiro, fazendo dele alguém ainda mais poderoso. Acredita-se que a possessão voluntária por um Inugami cure doenças, mas com o resultado temporário do possuído atuar como um cão.

Já a possessão com o objetivo de vingança, causa dores escruciantes no peito, braços e pernas da vítima, seguido de violentas sacudidas nos ombros, semelhante quando o cachorro remove a água de seu pelo e por fim, o possuído passa a latir e a rosnar como um cão.

Pessoas com tendência à possessão, são apontadas como sendo emocionalmente instáveis e popularmente acredita-se que o espírito de Inugami entre pelo ouvido e se hospede nos intestinos da vítima, fazendo com que esta se torne extremamente ciumenta.

Na província de Tokushima, acreditam que um possuído por Inugami tem o seu apetite aumentado de forma assustadora e ao morrer, aparecem marcas de dentes de cachorro em seu corpo. Nessa mesma província, não só pessoas seriam possuídas mas também vacas e cavalos e até mesmo utensílios, como o serrote por exemplo, que quando tomado pelo espírito, a ferramenta se tornaria inútil.

Kenmijinja, o único templo no Japão dedicado
a exorcizar a possessão por Inugami.
Na localidade de Komatsu, município de Shuusou, província de Ehime, existe a crença de que os membros de uma família com linhagem Inugami, são proporcionais em número aos espíritos caninos, ou seja, quanto mais membros, mais Inugami.

Esses espíritos por sua vez, teriam a capacidade de ler os pensamentos dos integrantes da família e sairiam em busca do alvo de sua possessão ante a menor manifestação de desejo do seu detentor.

No entanto, nem sempre tais espíritos seriam obedientes e não raro os membros dessas famílias seriam assassinados à mordidas pela manifestação, que muito além de um feitiço é uma verdadeira maldição.

Artigo da nossa série Youkai, cheinho de cultura, lendas e curiosidades...Só falta agora os leitores...
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